segunda-feira, fevereiro 20, 2006

Sobre Erik Satie

Para ver pequena biografia e ouvir músicas (clicar sobre os altifalantes):

  • Erik Satie
  • Ainda a propósito de Stig Dagerman

    "Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
    Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
    com livros atrás a arder para toda a eternidade.
    Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
    dentro do fogo.
    - Temos um talento doloroso e obscuro.
    Construímos um lugar de silêncio.
    De paixão."
    Herberto Helder (Poemacto - 1961)

    A propósito de:

    A NOSSA NECESSIDADE DE CONSOLO É IMPOSSÍVEL DE SATISFAZER, de Stig Dagerman; editora Fenda

    “Cantar é empurrar o tempo ao encontro das cidades futuras/
    fique embora mais breve a nossa vida.[…]”
    “Canto” in Terra de Harmonia, 1950

    Carlos de Oliveira escreve este poema em 1950. Vejamos o que escreve Stig Dagerman no livro que publica em 1955:
    “E enquanto me for possível empurrar as palavras contra a força do mundo, esse poder será tremendo […]”

    Contra a força do mundo, contra as cidades futuras, cantar, escrever como acto de empurrar, uma ideia de força ou de luta, de arte marcial, força contra força, eu e o meu canto contra o mundo, eu e o meu canto contra as cidades futuras, alguém tem de sucumbir; não sucumbe o mundo, não sucumbem as cidades futuras, sucumbem os frágeis corpos de onde sai o canto. Que mais tarde o mundo, as cidades futuras, adoptarão como seus.
    Com 5 anos de diferença estes dois poetas escrevem o mesmo, porque eles são a caneta do mundo. Assim sendo, esta luta de que falam é a luta do mundo contra si mesmo.

    Mergulhando na leitura deste livro pode parecer, à primeira vista, que a fé na morte é o deus na vida, mas não é assim. Ele é um sobrevivente que passa a vida como um herói trágico a tentar fintar a morte que lhe pende fatalmente, sobre a cabeça. É um herói em luta durante 31 anos contra o destino. É uma luta desigual. E ele sucumbe deixando atrás de si um lastro de luz: a luz que produziu na luta e que materializou em livros.
    Uma mãe que não procura um filho é uma mãe que sentencia um silencioso decreto. Não é culpada, apenas cumpre um destino.
    Um filho que se asfixia para morrer faz o processo do nascimento ao contrário; de facto, ele não se matou, apenas procurou reentrar no ventre. Não é culpado, apenas cumpre um destino. É por isso que nos seus livros se encontra a palavra suicídio, mas não encontro a morte; são livros de alguém que quer a vida. Este ser matou-se à procura da vida. É personagem de um filme de amor equivocado. “Só aos 19 anos conheceu a mãe – foi ele quem a procurou.”.
    Sei de onde lhe vem a luz da escrita (da memória do ventre, da total e amorosa união), e sei de onde lhe vem a irreparável ferida: a dolorosa separação.
    Isto poderia não ter tido a gravidade do desfecho que teve. Mas teve. Sem pretender e mesmo sendo incapaz de fazer a apologia do suicídio, vejo esta particular morte como uma forma de esperança de quem ainda é capaz de tentar um último gesto. Ele fez um gesto brusco e asfixiou-se na garagem com o escape do carro. Uma grande parte dos humanos fá-lo lentamente deixando-se ir vivendo. Respirando levemente, apenas o suficiente para não asfixiarem de vez. No fundo, também estes têm esperança. Vão-se deixando viver à espera que um dia valha mesmo a pena. Um dia morrem sem saber.

    Tenho perante este livro o mesmo sentimento que perante o Requiem de Mozart e até de Bomtempo. Saem da morte e trazem a alegria da vida e da criação. Não me deprimem: exaltam-me.

    A propósito deste texto, deste escritor, desta vida, ocorreu-me alterar um poema que publicara numa outra circunstância e acompanhado da foto que na altura com ele fez todo o sentido, mas também aqui, porque o homem que deixa de respirar à procura da mãe que não encontrou quando molhado e nu aqui chegou de uma difícil viagem, é um homem que faz o percurso do amor de pernas para o ar:

    “Porque a salvação do amor
    Será transformar
    Em dar
    A dor.
    Sem fracturas
    Sem dias cansados
    E sem ócios adiados.
    Talvez o melhor
    Seja virar
    O amor
    De pernas para o ar.”

    Os Direitos Inalienáveis do Leitor

    1
    O Direito de Não Ler
    2
    O Direito de Saltar Páginas
    3
    O Direito de Não Acabar Um Livro
    4
    O Direito de Reler
    5
    O Direito de Ler Não Importa o Quê
    6
    O Direito de Amar os "Heróis" dos Romances
    7
    O Direito de Ler Não Importa Onde
    8
    O Direito de Saltar de Livro em Livro
    9
    O Direito de Ler em Voz Alta
    10
    O Direito de Não Falar do Que se Leu
    Daniel Pennac in «Como um Romance» Ed.: ASA
    Ao que podemos acrescentar:
    11 > O direito de participar na Comunidade de Leitores da Escola Aberta «Agostinho da Silva» - CACAV
    12 > O direito de participar no blog de leitores e leituras: http://avleitores.blogspot.com

    sábado, fevereiro 18, 2006

    Próximo livro

    Na sessão do dia 18 de Fevereiro de 2006, a «Comunidade de Leitores» escolheu a seguinte obra para leitura, reflexão (inspiração...) e debate/partilha a realizar na próxima sessão, dia 18 de Março na Biblioteca de Alhos Vedros:

    Título: Memória de um amnésico
    Autor: Erik Satie
    Editora: Hiena

    Até lá, ficamos à espera de uma participação activa aqui no blog - quer dos membros da comunidade "física" (a que se reúne periodicamente) quer da comunidade "virtual" que terá aqui o seu espaço de tertúlia.

    A todos, muitas e boas leituras (que também se podem fzer num livro!),

    com um abraço fraterno,

    Zé Miguel

    Prefácio

    Primeiro uma moinha nos interstícios do ser, um formigueiro nas veias, um engolir repetido até à secura da garganta. O coração agita-se. O corpo estremece na antevisão do prazer. A mão revela-se, por fim, cumprindo-se na função criadora. E a primeira palavra derrama-se sobre a folha enquanto os olhos dão lugar à alma na condução do animal desenfreado que já não é o corpo do escritor. Apenas o monta e cavalga como antes o fez ele à frescura das ervas por onde se lamberam os dedos dos pés descalços; à brisa da tarde vermelha que se pendura nas costas quando ama; aos regaços femininos que o embalaram nas memórias matinais; às mãos por onde os segredos da sua pele foi descobrindo; ao mundo a às suas mil madrugadas que cada farrapo de noite pode conter...
    Depois, já não são só palavras. É o sangue e os ossos a construir o texto. É a carne que se refaz em cada página. É o sonho e o sonhar condensados numa vírgula, num silêncio adivinhado. É o orgasmo da alma no último detalhe, na derradeira palavra. Fez-se a obra. Cumpriu-se o ser.
    Talvez ainda não...
    Eis que chegam os operários que vão limar as arestas à medida dos gumes que precisam, moldar a forma de forma a dar vida ao ser adormecido nos desejos mais recônditos , procurar as cores das emoções para dar um nome às respostas que tinham guardadas à espera das perguntas que lá coubessem. Eis que chega o sentido e a tradução da palavra LIVRO. Eis que chegamos nós: OS LEITORES.


    Sejam Bem-vindos!